domingo, 5 de abril de 2009

Memórias - Cap.4

Eu não podia ouvir aquelas palavras e não pensar nelas. Dante não foi preciso, talvez fosse essa a sua intenção. Eu era egoísta. Durante aquele tempo, tinha pensado apenas numa maneira de expulsar Ema daquela casa. Existiam problemas bem maiores que a minha vontade, agora via isso. Mas que podia fazer? Eu era uma criança que nem a sua própria cabeça compreendia quanto mais retirar a venda dos olhos e tomar consciência do que se passava para lá do meu conto de fadas! Eu não vivia numa ilusão, isso seria um castigo demasiado penoso. A casa de férias, as empregadas, os sorrisos arquitectados, a verdade que chegou tarde demais...
« - Passa-se alguma coisa, menina? »
« - Qual é a verdade que eu não vejo? Se existe alguma verdade nisto tudo » .
« - Não estou a compreender ».
« - Quais são os segredos que me esconderam? »
« - Não sei do que fala ».
« - Por que é que sinto que está tudo errado? Eu não confio em mais ninguém, nada parece fazer sentido! Quem sou eu? O que faço aqui? »
Tinha a sensação que tinha perdido a minha identidade. Eu não era sensível, aguentaria qualquer verdade. Quem pensava que o era, não me conhecia nem um pouco. Lembro-me que naquele dia refugiei-me no sótão. Raramente subia as escadas que davam acesso àquela parte da casa mas sei lá porquê, resolvi abrigar-me naquele local. Era um bom espaço, apesar de estar vazio. A vista para o campo era de facto extasiante, sendo lamentável apenas existir uma janela.
Escrevi na última página do diário as minhas interrogações. Não eram para ninguém, todas as anotações que fazia serviam para clarificar os pensamentos que cirandavam à volta da minha cabeça. Naquele momento julgava que estava enganada quanto a tudo. Até então, a verdade era um termo que pertencia a todos os seres humanos, um termo ao qual ninguém podia fugir sem ser julgado dia menos dia. Tomei como exemplo o meu pai. Não tinha uma relação próxima com ele, não sabia o que fazia quando estava triste, as suas expressões, o que representava na sua vida. Concordávamos nesse aspecto: também ele não sabia nada sobre mim. Não quer dizer que não tivesse curiosidade em aprender e descobrir a sua personalidade mas não valia a pena quando esse alguém se fecha sobre si próprio como uma concha. A verdade nunca me pareceu desaparecer das suas palavras ou acções. O meu pai era um homem correcto, justo, um homem “às direitas”. Não falava sobre o seu trabalho, o que sempre me intrigou, mas isso nunca foi motivo de conversa. A minha mãe era uma pessoa impulsiva. Sempre deixou os momentos de cordialidade, as relações formais, ela gostava de se relacionar com toda a gente e de não ter apenas um ponto de vista. Não tinha receio de ser falada, tudo o que fazia era usado para o Bem e nada contra esse valor. Os meus pais eram precisamente o contrário um do outro.
Dante. Não sei por que pensei nele, acho que se o tinha feito, com certeza teria alguma razão de ser. Ele também era muito diferente de Ema. A maneira como falava, pensava e por vezes agia, tornava-me uma pessoa insignificante. Eu não tinha uma ideia de como a realidade era para lá da minha própria vida. Por outro lado, ele sabia muito bem tudo o que se passava. Mais uma razão para o meu pai o achar uma pessoa inconveniente. Mas eu não pensava assim, de maneira nenhuma. Queria-o bem perto, como uma tábua de salvação. Ele era a única fuga a todas as mentiras, ou pelo menos às verdades omitidas. Não tinha qualquer dúvida quanto à sua presença e aos sentimentos que nutria por Dante. Ele era um amigo especial, uma pessoa que me “empurrava” para a realidade quando a ilusão já não fazia sentido. Esperava encontrar respostas para as minhas interrogações. Apenas não queria tornar-me como aquele sótão, um espaço vazio...

(Viajante Solitária)

3 comentários:

t i a g o . disse...

E o Dante sou eu, obviamente. Muahahahaha.

Continuaaaa, adorei o capítulo!

Carla Capricho Santos disse...

e eu também , vou voltar :)

Anjo De Cor disse...

Excelente ;)